Na História de Portugal, o dia 23 de Fevereiro ficará para sempre marcado pela morte de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, o autor, cantor, compositor e músico que ficou mais conhecido como Zeca Afonso.
Faz hoje duas décadas que Zeca partiu e que o país ficou mais pobre devido ao desaparecimento prematuro de um poeta, de um músico, e sobretudo de um cidadão que colocava em primeiro lugar o homem, a democracia, a liberdade, a igualdade de direitos e a solidariedade humanista.
Era dia 23 de Fevereiro de 1987 quando Zeca Afonso, com 57 anos de idade, faleceu no Hospital de Setúbal, vítima de esclorose lateral amiótrófica. Morria nesse dia o maior trovador de todos os tempos da música popular portuguesa.
Da liberdade, da liberdade em que tanto acreditou e pela qual lutou, usufruiu apenas escassos 13 anos. Se hoje fosse vivo, Zeca Afonso teria motivos de sobra para cantar e dizer que o país continua a ser pardo e incompreensivelmente injusto.
Zeca Afonso sofreu e cantou em nome da liberdade, sofreu e cantou em nome dos mais desfavorecidos, mas conseguiu abrir, quer através da poesia do povo ou de poetas consagrados, quer através da sua própria poesia e da sua música, uma luta sem tréguas contra a opressão, contra o obscurantismo, contra a ignorância e contra o cinzentismo de um país acorrentado e triste.
Zeca, o rosto e o símbolo da utopia, também cantou o Nordeste, um desventurado nordeste, através do tema popular “ Em Terras de Trás-os-Montes”:
Em terras de Trás-os-Montes
Entre Coelhoso e Parada
Uma história verdadeira
Foi ali mesmo contada
Algemado por dois pides
Na manhã de vinte e três
Lá vai Manuel Augusto
Sem mesmo saber porquê
Com ele vai Marcolino
Bufo dos Dominadores
Ide às minas da Ribeira
Vereis quem são os Senhores
Nesse lugar de trabalho
Nos confins da exploração
Diz o Marcolino aos pides
Apertem-me esse cabrão
Não contente com a prova
Do zelo que assim mostra
Àquele rapaz honrado
Esta fala então lhe dava:
Sabemos da tua vida
Amanhã por esta hora
Irás para o forte de Elvas
Diz adeus à vida boa
Também o José António
Foi na mesma interrogado
Assassino Marcolino
Foste o primeiro culpado
Entre Parada e Coelhoso
Ainda reina a opressão
Não deixem fugir o melro
Não quebrem vossa união
Várias iniciativas decorrem hoje de Norte a Sul do país com o único intuito de homenagear o músico poeta. Desde colóquios a exposições, passando pelos espectáculos ou por um simples gesto de recordação, tudo constituirá uma singela homenagem ao cantor que se hoje fosse vivo teria 77 anos de idade.
Mas no Nordeste nem o sussurro do seu nome. Nada. Um silêncio medonho.
Pelo Zeca Afonso fica então aqui a humilde homenagem do Notícias do Nordeste.
A equipa do Notícias do Nordeste [23-02-2007]
Podence queimou Entrudo 2007